Um magnata da comunicação do Brasil e um astro de Hollywood em Lagoa Seca. Saiba mais...


Frei Mojica com Frei Marcelo Gorken (professor de grego em Ipuarana), na chegada no Convento Ipuarana ou no Aeroporto de Campina Grande, em setembro de 1950.

Queremos resgatar um fato marcante para Lagoa Seca, certamente, de pouco conhecimento para muitos, mas, de uma relevância histórica incomensurável para o Brasil no campo das comunicações. Trata-se da inauguração do primeiro canal de televisão do país e da América do Sul, a TV Tupi-PRF3. Ela foi trazida pelo jornalista paraibano Assis Chateaubriand e inaugurada no dia 18 de setembro de 1950, no bairro do Sumaré, em São Paulo. Na ocasião, Dom Paulo Rolim Loureiro, bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo concedeu sua bênção ao empreendimento audacioso. 

Frei José Mojica, religioso franciscano, canta na pré-estreia da emissora, vindo a ser naquele momento, o primeiro rosto da TV nacional a aparecer, mesmo em circuito fechado. Ele cantou músicas românticas, entre elas "Besame Mucho". Foi um verdadeiro acontecimento, com muita divulgação, muitas fotos e certamente Mojica conseguiu angariar fundos para suas construções  religiosas. 

Assim, noticiava a imprensa na época: a Televisão no Brasil tem sua pré-estréia no dia 3 de abril de 1950 com a apresentação de Frei José Mojica, padre cantor mexicano. Ele cantará acompanhado por um religioso peruano, o pianista Pacifico Chirino e pela Orquestra Tupi. 

Mas o que tem haver esse fato descrito acima com Lagoa Seca? Ora, o galã mexicano de Hollywood que trocou a vida artística pela vida franciscana deu o ar de sua graça, em terras brasileiras, visitando, naquele ano, antes de chegar a São Paulo, o Convento Ipuarana de Lagoa Seca, já mundialmente conhecido pela qualidade do seu ensino na formação dos seminaristas que se preparavam para fazer parte da Ordem Franciscana na região Nordeste. Seu desejo foi prontamente atendido por Assis Chateaubriand, que, também, na sua companhia, se fez presente à casa religiosa. 

Outro fato relevante na vida do empresário e jornalista Assis Chateaubriand - também de pouco conhecimento para muitos - era que, ainda menino, frequentava com os pais a casa das tias residentes no Sítio Amaragi, comunidade da zona rural de Lagoa Seca.

Segundo Frei Milton Coelho, natural de Bezerros, PE, estudante na época no Colégio Seráfico Santo Antônio, sua passagem por Lagoa Seca (no Convento Ipuarana) aconteceu num clima de muita festa e alegria. Não era pra menos, afinal, um astro de Hollywood se fazia presente entre estudantes, professores, funcionários e religiosos. Com ele estava o também frade franciscano peruano, Frei Pacifico Chirino, seu pianista. 

Naquele dia, quase de improviso, no grande salão de recreio do Convento, foi realizada, em sua homenagem, uma Sessão Magna, cuja saudação foi pronunciada por João Batista dos Santos, o futuro Frei Demétrio, de saudosa memória. Uma música, composta pelos alunos, foi entoada, com a seguinte letra:

Juventude franciscana,
Eia, avante com ardor! 
Neste mundo nada engana
Nosso coração em flor.
E o estribilho:
Nossa peleja de guarda juvenil
É pela Igreja, pelo Brasil!

A voz do Frei José Mojica também foi quando cantou clássicos da música popular em seus filmes de galã, como Maria La-Ô, Gracia Plena, País Azul, Solamente Una Vez e Jura-me.

O Frei Mojica, considerado um dos grandes artistas latinos do século, antes de entrar para a vida religiosa, não pretendia retornar à vida artística, mas os seus superiores o autorizaram a voltar a cantar, para arrecadarem fundos para as obras da Igreja, pois ele havia sido o galã mais bem pago de Hollywood nos seus tempos de artista.

Apesar do sucesso que atingiu, - pois além da voz belíssima ele era muito bonito, nunca se ouviu falar de farras e namoradas e foi por causa de uma doença da mãe que ele prometeu abandonar tudo e consagrar-se à vida religiosa. 

Sobre Frei José Mojica

José Mojica é o nome artístico de José de Guadalupe Mojica. Ele nasceu na cidade de San Gabriel Jalisco, México, em 14 de setembro de 1895. Logo após o nascimento do menino, morreu seu pai e a mãe resolve mudar-se com o filho para a capital mexicana. José começou seus estudos no Colégio Saint Marie e posteriormente no Colégio San Ildefonso. Queria estudar agricultura, mas houve a Revolução Mexicana e a escola ficou fechada. Mojica, no entanto, estudou engenharia, agronomia e medicina veterinária. 

Sua veia artística pulsava forte e logo cedo começou a estudar canto. Tinha voz muito boa e timbre de tenor. Estudou canto no  Conservatório Nacional de Música, sob a orientação do maestro José Eduardo Pierson, muito conceituado e que foi o orientador de cantores que ganharam fama mundial, como:  Pedro Vargas, Afonso Ortiz Tirado. A estréia de José Mojica foi no Teatro Ideal. Depois participou  da ópera:" El Barbero de Sevilla', em 1916, no Teatro Abreu, e aí já se consagrou junto ao público. Resolveu ir para Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde arranjou emprego de lavador de pratos, para se sustentar, enquanto aguardava oportunidade para seguir em sua carreira artística. Com muito esforço foi conseguindo papeis secundários. Numa ocasião, foi ouvido pelo grande tenor Caruso, que se encantou com a voz do mexicano, que lhe deu alguns conselhos e o encaminhou para vários trabalhos. Um dos conselhos foi que José Mojica estudasse francês, inglês e italiano, além de estudar dança, equitação e atletismo. 

Depois de muita luta conseguiu uma apresentação, ao lado da grande diva Mary Garden, diretora da Companhia de Ópera de Chicago. Depois disso ele foi convidado a gravar pelo selo Édison, onde gravou trechos de óperas e músicas tradicionais mexicanas. Mojica foi também convidado para participar do filme "One Mad Kiss". Nos sets de gravação, o  cantor ficou até 1938, tendo galgado posto alto, comparável aos grandes cantores, como Nelson Eddy e Howard Keel. Mas Mojica resolveu voltar para o México e continuar fazendo cinema em sua terra natal. Ali ele filmou "El Capitan Aventurero". Já com fama e com dinheiro, o artista comprou uma grande "Villa", para dar a sua mãe, que mudou-se para lá e ali viveu até 1940, quando morreu.

José Mojica fez em Hollywood cerca de 10 filmes, no México, seu país, fez seis e na Argentina fez um, entre eles “Capitão Aventureiro”, “Loucuras de um Beijo”, “A Cruz e a Espada” e “Eu Pecador”. 

A morte da  mãe abateu-se sobre o cantor de tal forma, que ele entrou em depressão profunda. E resolveu mudar de vida e entrar para  a  vida religiosa.  Se desfez de todas as suas propriedades, deixou de atuar em filmes, mas fez o filme "Melodias de América", em que cantou "Solamente Una Vez", grande sucesso da época.  

Em 1942, Mojica ingressou no Seminário Franciscano de Cusco no Peru e passou a ser chamado de Frei Mojica. Depois foi transferido para o Monastero de San Francisco de Jesus, na mesma cidade. A sua fama o ajudou a reunir fundos para instalar um seminário em Arequipa, conseguindo ajuda da Argentina e de outros países.

Em 1958, Mojica escreveu o livro "Yo Pecador", que fez muito sucesso e foi passado para o cinema, o qual narrava a vida do cantor, então religioso franciscano. 

José Mojica pode ser apontado como um dos grandes artistas latinos do século passado. Através dos discos, filmes e apresentações pessoais, sua arte de cantor e figura de galã foram levadas a todas as partes do mundo. Depois que se tornou sacerdote-cantor, acrescentaria a essa fama e admiração o respeito pelas suas qualidades humanas.

Da redação

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