De mãe pra filha: artesanato em madeira se renova nas mãos de Salete Diniz, filha da artesã-santeira, Mestra Paulina Diniz

A cidade de Lagoa Seca, localizada na região Metropolitana de Campina Grande, Agreste da Paraíba, distante a 129 km por rodovia da capital João Pessoa, é destaque nacional e internacional em seu artesanato, que a cada dia está mais rico em detalhes. Incontestavelmente, a qualidade do artesanato produzido no município encanta a todos, particularmente em sua riqueza artística, seja ele produzido em madeira, estopa, sisal, tecido, crochê, bordado, pintura, dentre outras.

Com características bem diferenciadas, os artesãos de Lagoa Seca são ecléticos na produção de suas peças, com tipologias que permeiam o imaginário popular do Nordeste, desde a boneca de pano, o santo em madeira a mais sofisticada vestimenta de inverno.

O que dizer da artesã Maria Salete da Silva Araújo (Salete Diniz), de nossa querida cidade de Lagoa Seca? Das toras da umburana, madeira típica do semi-árido nordestino, peças de arte se formam em suas mãos habilidosas. A partir do seu trabalho minucioso e detalhado, surgem imagens de santos que dão vida na madeira morta. 

Com toda habilidade que lhe é peculiar, das mãos de dona Salete Diniz, moldadas com dedicação e carinho, surgem verdadeiras esculturas que encantam a todos. Como resultado, peças de artes se formam, muitas espalhadas e conhecidas em vários estados de nosso País. Ela é uma dessas artistas que alimentam a religiosidade popular da nossa região, fazendo com que o artesanato de Lagoa Seca se torne um dos mais ricos do Estado, conhecido mundialmente e no Brasil inteiro pela arte em madeira. 

Salete Diniz nasceu em 1957, numa família de imaginários, porque era assim que seus avós e pais chamavam as imagens que esculpiam na madeira de imburana. É filha da consagrada artesã-santeira, Mestra Paulina Diniz, precursora do artesanato em madeira na cidade, que não tirava da sala da sua casa uma imagem de São Francisco, esculpida pelo filho José Diniz, já falecido e que morava em Cabaceiras, no Cariri paraibano. “Essa imagem está comigo até hoje, com ela eu lembro da minha mãe e do seu trabalho", diz emocionada dona Salete. 

Trabalhando de forma artesanal há mais de 40 anos, dona Salete Diniz é uma típica herdeira dos conhecimentos passados de mãe para filha. O talento foi herdado de sua mãe, dona Paulina Diniz, que foi uma das artesãs mais talentosas do Estado e ensinou a arte a filha quando era adolescente. 

Ela conta que desde criança manifestou seu desejo de esculpir em madeira aquilo que sua mãe já fazia: criar as peças de artesanato. Às escondidas, ela pegava a faca da mãe e confeccionava peças de brincadeira. Novinha, ainda com 15 anos, ela confeccionou uma imagem de São Francisco e percebeu que levava jeito para o ofício de artesã. Naquele dia ela pegou uma tora de madeira e um santo de sua mãe e foi modelar a peça no quintal, debaixo de uma árvore. O resultado foi surpreendente. Quando menos esperava, a madeira havia se transformado num santo em madeira. Quando a mãe viu, a imagem já estava pronta. Desde aquele dia, a santeira Paulina parou de brigar com a filha. "Mãe gostou. Ficou muito feliz", conta. Uma nova artesã estava nascendo. O tempo passou, Salete Diniz cresceu, tomou gosto pela arte e virou uma das maiores artesãs da Paraíba. O que era apenas uma brincadeira de menina, hoje é o sustento da família. Com todo esse conhecimento na arte sacra Salete Diniz acabou influenciando outras pessoas de sua família, como seu esposo Martinho e seu filho Guilherme, perpetuando assim, a arte da santeira Paulinha Diniz. Até o pequeno Cauã, seu neto, já se interessa pela arte de esculpir em madeira, constituindo, assim, uma verdadeira família de artesãos de primeira linha.

A artesã trabalha se realiza no seu ofício de esculpir a madeira. Segundo ela, gosta do que faz e não trocaria por nada. Não consegue ficar sem esculpir. "O meu trabalho acontece hoje de forma muito natural. Eu pego o pedaço de madeira, imagino o que vou fazer, serro e a coisa acontece. Gosto demais do meu trabalho e por nada deste mundo faria outra coisa. O triste é que acho que essa arte vai morrer comigo. Meu marido e meu filho também fazem o artesanato deles, mas dos meus imaginários sou eu que dou conta. Trabalho uma semana inteira para fazer um presépio pequeno e ainda bem que não tenho peça parada aqui, relata.”

O trabalho dos artesãos de Lagoa Seca percorrem o mundo, principalmente em países da Europa. Um exemplo disso é uma das peças da artesã Salete Diniz, que foi parar no Vaticano. É que uma imagem de Nossa Senhora, talhada em madeira, foi entregue como presente ao Papa João Paulo II, quando de sua última viagem ao Barsil, em 1997. Salete Diniz, é uma dessas artistas que alimentam a religiosidade popular da região.  Como o ofício está no sangue da família, a arte em madeira segue renovada nas mãos habilidosas de Guilherme Diniz e outros membros do tronco familiar DINIZ.

Em 2008, o talento dos artesãos de Lagoa Seca foi materializado através de Salete Diniz, quando o Ministério da Cultura editou o livro “Em Nome do Autor”, cuja obra retrata as facetas de milhares de artesãos espalhados por todo país. Como não poderia deixar de ser, pelo seu talento e criatividade, lá está nossa artesã, representante maior da arte em madeira de Lagoa Seca. Na obra, Salete Diniz foi a artesã paraibana que teve seu trabalho exposto no livro. Em 2009, a Câmara de Vereadores de Lagoa Seca concedeu-lhe o título de “Mestra de Artesanato em Madeira”. 

Dona Salete Diniz é co-fundadora do Grupo de Artesanato Paulina Diniz que, juntamente com o seu esposo, o também artesão Martinho Araújo, trabalham com a produção de peças e esculturas em madeira. Seus trabalhos podem ser encontrados em várias lojas de artesanato da Paraíba e do Nordeste ou em sua lojinha, localizada ao lado da BR 104 Norte, na cidade Juracy Palhano, no antigo posto da Manzuá, sentido Campina Grande. Para outras informações, ligar (83) 9 9916-4951.

O artesanato produzido em Lagoa Seca, em sua manifestação da cultura material brasileira segue enchendo de orgulho nossa terra, graças a inventividade criativa de nossos artistas locais, representado através do universo de nossos artistas, em sua criatividade e diversidade humana. Além de peças esculpidas em madeira, a atividade artesanal do município é rica ainda na produção de bonecas de estopas, entre outros elementos criativos de nossos artistas locais.

Da redação

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