Poeta Josafá de Orós declara e declama seu amor a Lagoa Seca em versos cordelizados...

Publicamos, em primeira mão, algumas estrofes do folheto “Pequena História de Lagoa Seca em Cordel”, de autoria do poeta Josafá de Orós. O trabalho foi produzido especialmente em homenagem aos 50 anos de emancipação política do município, celebrado no dia 05 de janeiro de 2014. Seu lançamento ocorreu nesta quarta-feira, 05, na Câmara Municipal de Vereadores, dentro das comemorações do Dia Nacional da Cultura.

Segundo o autor, o cordel é apenas uma modesta contribuição à historia do município. Representa, também, uma atitude. "Julgo que cada vez mais, em relação a nossa própria cidadania cultural, mais do que nunca precisamos ter atitude. Postura e efetiva ação em nome de um projeto maior e mais amplo que tenha o ser humano desenvolvido como fulcro da intempestiva seta”, asseverou.

Leia e conheça um pouco mais da História de Lagoa Seca:

Os poucos versos que seguem
Reúnem-se para contar
A saga dessa cidade
Nascida nesse lugar
Um teatro que se encena
Na crista da Borborema
Seu tema, seu avatar.

No rural tem a beleza
Bonita vegetação
Tem a rama que se espalha
No meio da plantação
Tem-se rama de maxixe
No barreiro, um trapiche
Dando riqueza a nação.

D'uma forma organizada
Quero que você me fale
Como este povo nasceu
Permita que eu propale
Quando souber da história
De luta, perda, vitória
Pois a verdade é que vale!

Falando pausado assim
Aqui foi terra de índio
Que se chamava Bultrim
Mas, detalhe não espere
Pois detalhe assim, fere!
Não tem tintin por tintin.

Vou contar tudo que sei
Deste novato lugar
Pois aqui é muito novo
Novo, também invulgar
Mesmo que de forma breve
Essa história se inscreve
De maneira singular.

Lagoa Seca, menino
Tem riqueza aqui, ali
O rio Quicé, cachoeira
Furna do Amaragi
História que por si medra
Que sai da fresta da pedra
É história que eu vi.

É a história remota
Que não está no papel
Não tem nome do escriba
Do artesão no cinzel
Só se sabe que foi mestre
Aquele pastor campestre
Que fez desvendar tal véu.

São gravuras, são desenhos
Rabiscos da pré-história
Em monumentos de pedra
Com gigantismo com glória
Na Paraíba são tantas
É difícil contar quantas
Essas quadras da história.

Em épocas pré-históricas
Esses homens primitivos
Na luta pela mantença
Foram tecendo seus crivos
Como desenhos, gravuras
Por vezes em esculturas
Um desafio p’ros vivos.

E a formação rochosa
Do tipo sedimentar
São pedras que tem beleza
Que não cansa admirar
Essas gravuras inscritas
São insígnias benditas
Para nos interrogar.

Nas terras de João Bruaca
Passa o Rio Mamamguape
Lá, no inverno tem água
Sangria, não tem quem tape
Muita água que escorre
Esperança que não morre
Beleza de bom quilate.

Naquele rio já teve
Outras tantas inscrições
Sendo gravuras, letreiros
Em gigantes matacões
Emoldurando paisagens
Medo, mística, visagens
Nos leitos fundos, grotões.

As Inscrições são heranças
Dos povos que habitaram
As terras antigamente
E aqui manifestaram
Em pedras rudes, cavernas
No relento, nas casernas
As artes que cultivaram.

Do tronco dos Cariris
Os Bultrins aqui ficaram
Nas regiões de Pilar
Esperança, onde lutaram
Ergueram sem ser refém
‘Lagoa Grande’ também
Cresceram, edificaram.

Ao desterrar tanto índio
Deu-se a agricultura
Também fazendas de gado
Dando base a cultura
Os ledos, poderosos tais
Instalam aqui seus currais
Como premissa de usura.

Após a saga primeira
Outros povos chegaram
Para cultivo e gado
Essas terras ocuparam
Com desejos delirantes
Esses monstros dominantes
Seus poderes espalharam.

E com os tempos passando
O povo também passou
Formando novo gentílico
Que aqui se nomeou
Como povo dedicado
Por vezes bem esmerado
Que o bom senso logrou.

Lagoa Seca foi rota
De tangerinos, tropeiros
Que aqui fizeram ponto
E marcas de pioneiros
Os punhos desbravadores
Viram encantos e cores
Luzes, paisagens, celeiros.

No lombo da tropa grande
Na forte temperatura
Corria melaço quente
Derretida rapadura
Sob o relho que estalava
A tropa antecipava
O transporte da mistura.

Lagoa Seca assim nasce
Na permuta, no escambo
Levando charque, farinha
E rapadura a mando
Os caçuás na cangalha
Tropa forte é que malha
Com manguá chicoteando.

Foi ao modo de Campina
Que a cidade nasceu
Com farinha e rapadura
Tudo surgiu e cresceu
Transportando o almocreve
Aquele burro que serve
Ao comercio que cresceu.

Antes de nascer cidade
Lagoa Seca foi mata
Foi brenha densa, fechada
De sucupira, de jaca
Madeira forte, de fibra
Que no tronco se equilibra
Não deixa cortar de faca.

Cidade que nasce assim
Rodeada de beleza
No mapa só tem destaque
De rainha, de alteza
Que fácil enfrenta o mundo
Penetra no mais profundo
Com força, mas com destreza.

Quando tudo começou
No baixo Amaragi
Era no ano de vinte
O crash não houve aqui
Mas a bolsa deu sinal
Que algo de anormal
Chegaria por aqui.

A capelinha dali
Foi erguida em dezoito
E ali se rezou missa
Para pacato e afoito
Mas o tempo se passou
O dano se instalou
Reformou em vinte e oito.

Mesmo assim se desenhou
Um leque quão virtuoso
Que forjou toda a história
Inté mesmo a de trancoso
Deixando o cidadão
No confronto da ação
Pleno, feliz e honroso.

E foi no ano de trinta (1930)
Com água do cacimbão
Puxada a corda e lata
E  com a força da mão
Veio abastecimento
Desse límpido alimento
Com ares de salvação.

Lagoa de paul seco
Escondendo ‘sete grilo’
Que canta a noite toda
 E sem nos deixar tranqüilo
Em nossa cama dormir
Pois grilo tem cri-cri-cri
Faz parte do seu estilo.

Lagoa Seca também
Tem destaque no relevo
Que guia a minha escrita
No momento que escrevo
Ora descendo a ladeira
De forma leve, fagueira
Com cadência, com enlevo.

No ano de meia quatro
Teve emancipação
Do cordão umbilical
Fez-se a libertação
Que já nos primeiros anos
Deficiências, sem planos
Deu-se a indagação.

Com a emancipação
Anunciou-se a cidade
Pois, com apenas três ruas
E muita dificuldade
De lição isso serviu
E assim ao mundo abriu
O vigor da mocidade.

Para uns, emancipado
O mundo se descortina
Toda névoa que encobre
Empalidece,  destina
Inibe, não desenvolve
Quem quiser que comprove
Esse traçado de sina.
  
A mandioca daqui
Foi a base da farinha
Que Campina alimentou
Deu sustança a Rainha
De pequena, no início
Como cumprindo o ofício
E o legado que tinha.

Inda assim Lagoa Seca
Tinha grande dependência
Em tudo que imagino
Para além da aparência
Como um destino atroz
Ela sem fala, sem voz
Fez no grito sua urgência.

Em tudo Lagoa Seca
Dependia de Campina
Porque era seu distrito
Nisso, você imagina
Quem na política defende
E na hora agá ofende
Quem num lance desatina?

E na condição de vila
De povoado ou distrito
Aquele burgo pequeno
Em seu desejo estrito
Desde então já se sabia
Que de tudo dependia
Verdade crua, não mito!

Nesse tempo o povoado
De taipa, de vara e palha
Estampava a pobreza
Condição que assim valha
Em poucas ruas que tinha
De pobre choça e casinha
Simples, qual nesga, migalha.

Eram casinhas bem simples
Abrigando a pobreza
Que ali se concentrava
Buscando abrigo, justeza
Tal a Rua do Nordeste
Unindo cabra da peste
Forte cordão, fortaleza.

No povoado nesse tempo
Obra  pública, não tinha
A primeira obra que teve
Teve cara d’uma rinha
No governo Plinio Lemos
Que na canoa, sem remos
Deu pão, circo e farinha.

Ano de 55
Quando esse fato se deu
Candidato trocou voto
Por pedra, inda perdeu
Revoltado com aquilo
O coronel intranqüilo
Foi cobrar o que ele deu.

E foi assim que perdeu
O cabresto-calçamento
Que com pedra e areia
Água que liga cimento
Queria prender o povo
Encapsular em um ovo
Dar-lhe nome de jumento.

O cacimbão que já fora
Principal fornecedor
Na moenda de farinha
Massa de tão branca cor
No Cumbe a almanjarra
Move  engenho na marra
Suor, força e torpor!

Desde cedo o município
Em Jesus fez sua prosa
Plantando cruz na estrada
Outra vez, plantou foi rosa
Que no tronco tem espinho
Tem cheiro, olor carinho
Traçando  trilha amorosa.

Aqui  tem congregações
Marista, tem Franciscano
Fazedores de história
Sob ordem de romano
Catequese com enredo
Fez do matuto bem cedo
Voto a cristo, sem engano.

Hoje que Lagoa Seca
É cidade de mil planos
O Brasil todo conhece
O que construiu em anos
Forte na agricultura
Obras-primas na cultura
É sucesso. Convenhamos!

O artesanato é forte
Como um gládio, um facão
Artesão faz na madeira
Adro, capela, oitão
Onde alinha a premissa
De obra bela e maciça
A brotar de sua mão.

Os nomes daqui são muitos
Martinho talha com rima
Expedita tem minúcia
Na estopa, a obra-prima
Que devagar, aparece
Vem na forma d’uma prece
Brotando de mão bem fina.

Teve ainda a  Paulina
De sobrenome Diniz
Extraindo da umburana
São Francisco de Assis
E esse de tão perfeito
Puro, belo, sem defeito
Não falava por um triz.

E o povo do lugar
Sempre foi religioso
Não podia ver a cruz
Do homem mais operoso
Para - rezando com calma -
Lavar o sujo da alma
Em busca do virtuoso.

Mesmo das brenhas, dos sítios
O povo vinha rezar
Na capela mais miúda
Que pudesse apertar
Pra ver vigário dizendo
Um sacristão, aprendendo
As pistas pra se salvar.

Assim era na igrejinha
Bela do Amaragi
Arrebanhando ovelhas
P`ra da prece usufruir
E ir limpando veredas
Tecendo as lisas sedas
Para o céu se conseguir.

Lagoa Seca já teve
Ao certo, dois padroeiros
Um, o São Sebastião
Vitimado por flecheiros
Que num tronco ao relento
Mostra dor e sofrimento
Apelo aos promesseiros.

Mas foi a nossa Senhora
Com seu Cícero Faustino
Que deu força ao evento
Deu-lhe luz, estrutura, tino
Qual força, de pioneira
A  elevou padroeira
Do povo, em seu destino.

No ano de trinta e nove
Com força os franciscanos
Fez Frei Manfredo um líder
Pois, homem cheio de planos
Que deu um rumo à festa
Embora linda modesta
Não permitiu desenganos.

Frei Manfredo apaixonado
Pela lira de Orfeu
À frente de tudo música
Sonhava que nem Teseu
Deu energia, instauro
Combatendo o Minotauro
Regalando a Egeu.

Bem assim foi este frei
A frente do seu ofício
Num período complicado
Privação, como é difícil
Mesmo assim o jovem frade
Ao juntar tanto confrade
Deu cara ao armistício.

Foi no ano trinta e nove
Como movido a monjolo
Com areia, cal e cimento
Pedra, massame e tijolo
Linha firme esticando
Trinta homens trabalhando
Que construíram a rolo.

Uma jóia arquitetônica
Foi brotando na paisagem
E sua beleza plena
Com leveza de visagem
Nos ares que tem a serra
Redesenhou nessa terra
Futuro, asas, miragem.

Pois quando aqui chegaram
Da Europa, franciscano
No ano mil e quinhentos
E oitenta e cinco, o ano
Frades com força e gás
Mostrou então como faz
Um projeto, com bom plano.

Com apenas duas ruelas
Casa de barro, socada
Lagoa Seca fazia
Uma festa organizada
De dar orgulho as gentes
Que levavam seus parentes
A integrar a parada.

E no ano de dezoito
Se construiu a capela
Cheinha de arabescos
Lugar para acender vela
Jóia da arquitetura
Com mimo de escultura
Ou mais primorosa tela.

E ali foram chegando
Grandes montas de fiéis
Que a pé buscavam missa
Em burros com seus tropéis
Bem cansados na peleja
Buscavam louvado-seja
Nos sofrimentos cruéis.

A igrejinha pequena
Como a tarimba nasceu
E ali por certo tempo
Muita gente se espremeu
Pra ouvir dizer a missa
Frade idoso ou noviça
Mas, jamais um fariseu.

Barracas, parques e bandas
Animavam o pavilhão
No parque tinha de tudo
Não faltava animação
A mulher tirava o véu
Montava no carrossel
Sem ter cor ou cordão.

Nos autos na diversão
O povo fez seu caminho
Nas fitas do pastoril
E no cavalo-marinho
Na festa de padroeira
No São João, com fogueira
Festa de amor, carinho.

Grande força na história
Foram os frades menores
Que da Europa chegaram
Com seus planos, os melhores
A Ordem de São Francisco
Deixou em livro seu risco
E os seus traços maiores.

Foi Giovanni Francesco
Bernadone, fundador
Religioso toscano
Que fez cheio de amor
Do seu pai vem a herança
Bondade, visão, bonança
O fazendo pregador.

Agora em nossa era 
Lagoa tá despertando
E um futuro melhor
Vem ela orientando
Um percurso sustentável
Pacífico, agradável
Como hino entoando.

O município vislumbra
Um futuro promissor
E quer guiar o seu povo
Com verve de professor
Amostrando que quem ousa
Escreve na própria lousa
Um pentagrama de amor.

Lagoa Seca já cuida
Das riquezas que detém
Uma capela bonita
Ou galinha com xerém
Verde, encosta, verdura
Que mais parece pintura
Que nem todo lugar tem.

Aqui também tem cultura
E temos que preservar
Gente que escreve livro
Faz a história contar
Como fez Lili dos Santos
Ao desvelar os encantos
E os mistérios do lugar.

Ela escreveu Tarimba
Uma obra pioneira
Que relata os primórdios
Como a pedra primeira
Marco velho fundador
Pesquisa, foco, amor
Pondo-a na dianteira.

Lagoa Seca tem tudo
Quanto possa imaginar
Tem beleza natural
Quão difícil é contar
Tal universo  imenso
Quanto mais aqui eu penso
Mas riqueza há de sobrar.

Tem alface e coentro
Tem rúcula e bem fresquinha
Escarola tem ainda
Aromática salsinha
Tomate vermelho e grande
Quem quiser um é que mande
Costela boa e farinha.

Tem até nabo gigante
Rachando flor no canteiro
Rabanete tem também
Pois a terra é celeiro
Dos produtos que dão vida
No acordar, na dormida
Alimento por inteiro.

Lagoa Portal do Brejo
Tom riqueza natural
Com encantos nos aclives
Nas frentes no matagal
Destaque de flora bela
Ypê de flor amarela
Jardim, imenso `rosal`.

Nas matas que tem pau-ferro
Pau-Brasil, Massaranduba
Ypê-roxo, Jatobá
Tem embira, tem Munguba?
As folhas, húmus da terra
Nutrindo baixio ou serra
Com milho moído e fuba.

Na verdura se destaca
A roxinha berinjela
O maxixe, o quiabo
Tomate de flor amarela
A pele lisa de fada
Na tábua só bem cortada
Dando sabor na panela.

Agora que tem história
Toda feita em cordel
A cidade ganha força
Assentada no papel
Tal o mito de pandora
Salvaguarda da senhora
Nas densas nuvens do céu.

Lagoa Seca tem segredos
Já disse noutro momento
Quando a pus nessa vanguarda
No mais alto pavimento
Também lhe dei chão e terra
Força viva, que encerra
Toda lei do movimento.

Não foi engenho de cana
Foi monjolo de farinha
Que desenhou o futuro
Do povo que aqui tinha
Dando força a região
Plantando fava, feijão
Eis o costume que tinha.


Era no lombo dos burros
Que tudo se transportava
Algodão e mandioca
Que no engenho ralava
No grito um almocreve
Combatia a marcha leve
Cansada a tropa ralava.

Sobre o lombo, um forro
Amaciava a cangalha
Para montar caçuá
De cipó na cor de palha
Forte e com estrutura
Belo, lindo, escultura
Fino e sem maravalha.

Mas os anos se passaram
E todo o mundo mudou
Da forma mais radical
Toda mudança alcançou
Os lugares mais remotos
Deixando, talvez os votos
Que cultura esboçou?

Lagoa Seca de hoje
É grande Portal do Brejo
A sua arte e cultura
Força sempre que invejo
Com seus múltiplos artistas
Músicos instrumentistas
Com fama do rio Tejo.

Cinqüenta anos, é pouco
É a cidade, menina
Inda vem desabrochando
Como poesia com rima
Enfeitada com um véu
Botões, rosas, vergel
Um facho que ilumina.

Desde quatro de janeiro
Lagoa Seca festeja
Este seu cinqüentenário
Qual rainha que esteja
Com camafeu sobre o peito
Um figurino perfeito
E um coração que lateja.

E assim, pois, esperamos
Um sorriso entre dentes
Lábios largos, macios
Desejos bons e presentes
Pra fazer bons cidadãos
Verve, trabalho nas mãos
Discernimento nas mentes.

Justo agora, termino
Ode, meu simples cordel
Saindo pela tangente
As bordas desse papel
Folhas que eram brancas
Agora com letras tantas
Desenham nossa história
Esse passado de glória
Olhando o que fizemos
Rimando com o presente
Olhando para o futuro
Seguindo sempre pra frente.

Josafá de Orós
Lagoa Seca - 2014.

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