Xilo e Estilos: as gravuras sociais de Josafá de Orós, artista que respira e faz arte em Lagoa Seca...

Teve início nesta terça-feira, 30, na Casa da Cultura Mestra Paulina Diniz, localizada na rua Antônio Borges da Costa, Centro, como atividade do projeto “A Feira de Campina Grande Sob a Ótica da Xilogravura de Josafá de Orós", patrocinado pelo Fic - Augusto dos Anjos, a oficina de Introdução a Xilogravura

Para saber mais sobre o pensamento de Josafá de Orós sobre a xilogravura, esse cearense que agora respira e faz arte em Lagoa Seca, faz-nos mergulhar na efervescência de sua lucidez filosófica, extraindo dela a genialidade de um pensador moderno em sua arte de xilogravurar. 

Para ele, a arte da gravura atravessou séculos em sua existência basicamente primitiva de 'carimbar' formas, imagens do cotidiano, em pano ou papel, resistindo ao longo desse tempo todo graças aos artistas que mantém o esforço e a sensibilidade em retratar, num desenho na madeira, nossa identidade brasileira. 

Em sendo assim, nas mãos de Josafá de Orós, o gravurista continua talhando a madeira que vai tomando forma, completando sua arte com a tinta impressa no pano ou papel, virando gravura. Esse estilo de arte, para quem não sabe, diz o artista, vem do tempo das cavernas que ainda se mantém da mesma forma de ser, graças às mãos dos gravuristas. No caso de Orós, ele vai além: ele consegue manter essa milenar arte, difundindo-a em oficinas e através da redes sociais na internet.

Mas quem pensa que ele usa simbolismos modernos demais pra fazer isso, está enganado. A xilo e o estilo de Josafá é juntar o erudito e o popular. Desde cenas da feira, de cidadezinhas da Paraíba, até xilografias de importantes figuras eruditas como Nietzsche, Drummond, Sivuca, Carlos Scliar, Turgheniev, Jackson do Pandeiro, Tomas Mann, Dostoiewski, Picasso, Ariano Suassuna, dentre tantos outros, a gravura vive nele como uma linguagem viva e provocativa até do sociólogo e poeta que Josafá também é. 

Muito da arte dialoga com a sociologia e a poesia no trabalho dele, que fez a primeira exposição de artes visuais com 12 anos de idade. Das reproduções de gravadores como Lazar Segal, em pintura em tela e outros estilos 

Ao dialogar com esse talentoso artista nordestino-cearense, paraibano de coração e, agora, lagoasequense por adoção, nossa equipe de reportagem buscou nas entrelinhas coisas inacreditáveis, inimagináveis, pouco conhecidas do público sobre sua arte. Vamos saber agora quem é Josafá de Orós, que pra nosso orgulho e honra, agora está entre nós, morando e fazendo arte em Lagoa Seca.

- Você trouxe temáticas populares para suas xilogravuras, mas com um olhar meio fotográfico, voltado para símbolos incomuns nas xilos, como um recorte de um boi-bumbá. Como e quando surgiu o interesse por essa arte? Conte um pouco a sua história com a xilogravura e como está sua relação com ela hoje em dia.

Josafá de Orós - Sempre fiquei bastante impressionado com a força do expressionismo. Quando Campina Grande tinha existência cultural e artística podíamos nos deliciar com magníficas mostras de cinema, mostras importantes de artes visuais, etc. E isso realmente tem força sobre a formação das pessoas. Eu ainda peguei uma rebarbazinha dessa Campina do Leitorado alemão, Campina dos últimos cineclubes, etc. Na minha gravura você vai encontrar, junto, o erudito e o popular. Lado a lado com estas figuras tomo os elementos populares e pitorescos da realidade nordestina para dar fluência a minha relação com a realidade. Com 12 anos de idade fiz minha primeira exposição de artes visuais. Eram reproduções inclusive de gravadores como Lazar Segal, Picasso. Expus no Centro Artístico Jorge Miranda em Campina Grande. Minhas primeira incursões na arte trilharam caminhos diversos que iam da pintura em tela, da escultura em madeira e argila, ao desenho, bico de pena, etc. Tudo isso, essa relação por tanto tempo me levou ao conhecimento e ao exercício dessa arte da reprodutibilidade rudimentar, originária e antiga, que é a xilogravura. Por vários anos coordenei a mostra de artes visuais do Festival de Inverno de Campina Grande. Dei atenção às várias modalidades de expressão no campo das artes visuais realizando exposições, oficinas, workshops, instalações, etc. Num dos festivais pude trazer o melhor da gravura mexicana, notadamente a calcogravura e a serigrafia. Mantenho uma relação muito intensa com o abstracionismo dos mestres, dos grandes mestres, contudo, sempre desconfio dos neófitos que se dizem praticantes ou experimentadores da ambiência dessa expressão. Essa desconfiança antiga me manteve sempre próximo à figuração. Por vezes, acho que valorizo muito escolas como o Expressionismo e o Hiperrealismo. Admito, embora eu possa transitar por entre vários estilos e escolas na pintura, na escultura e na gravura, que a figuração das cenas imediatas me assediam e me conquistam. Daí o meu interesse por feira, pelo elemento pitoresco, pelo traço marcante do rosto de um chapeado, a rusticidade da expressão de uma tira de mocotó de boi dependurada numa tarimba no mercado central, uma tenda de ervas e mangaios, mágico de feira, o cordelista oferecendo o seu folheto, o rabequeiro encantando os ouvidos dos viandantes etc. Sou da noção de universalidade do Villa-Lobos. Se tu falas do teu quintal, podes falar ao mundo. Desde que comecei meu trabalho com gravura a mais de quinze anos nunca parei. A gravura é uma arte muito instigante e provocadora. 

- Campina Grande teve algum fato interessante, histórico, com a xilogravura, já que somos potenciais produtores da literatura de cordel, com ícones como Manoel Monteiro? Onde essa arte aparece hoje em dia no Estado e fora dele, no Brasil?

Josafá de Orós - Campina, como sabemos, é uma cidade difícil que vive remoendo passados e com poucas perspectivas no campo da cultura em geral e das artes em particular. Campina é uma cidade que vive de semblantes de ícones alienados, vagantes sem sustentação.

- Como sociólogo, você encontrou alguma inspiração nas Ciências Sociais para o seu fazer artístico ou o curso foi outra investida separada da arte? Comente um pouco sobre essas duas áreas e como elas se instalam na sua vida.

Josafá de Orós - A sociologia é um instrumental extraordinário para compreensão da realidade social. A sociologia e a arte na minha vida alicerçam boa parte dos meus mundos reais e imaginários. As ciências sociais, como no dizer de Gilberto Freyre, por vezes chega a provocar dúvidas sobre o lugar de cada uma no processo criativo. Por vezes nos damos conta sociologizando os processos de criação, noutros momentos o fazer científico adquire tonalizantes estéticos. Criação artística e conhecimento sistemático mantém boa relação quando sabemos o lugar de cada coisa. A Embrapa nacional adotou doze xilogravuras nossas para um calendário institucional que circulou por todo o país. Ali, naquele trabalho, sintetizei uma visão sobre o nosso semi-árido e suas riquezas. No momento da escolha do que representar o homem que estuda e se interessa pelo Semi-árido aparece. Ciência e arte se imbricam e fecham no belo o seu produto. 

- A xilogravura brasileira já está bem representada na internet ou deve permanecer em sua forma primitiva de criação e difusão? Quem são os xilogravuristas mais destacados no Estado ou no Nordeste e com que temas cada um deles trabalha?

Josafá de Orós - A internet é uma das invenções mais extraordinárias depois dos grandes navegadores e do avião. É, ao mesmo tempo, o mais radical instrumento de democratização do conhecimento e, é também, paradoxalmente, um nicho de perversão sem precedentes. A gravura em geral, bem como todas as outras manifestações das artes, está muitíssimo bem representada na internet. Na rede podemos encontrar imagens de obras de anônimos e de gênios do gênero. Anônimos afoitos, cursos, vídeos especiais, documentários, textos históricos, aportes técnicos, materiais e ferramentas para venda, etc. Podemos encontrar tudo. É interessante perceber que a internet possibilita, até àqueles que não acessam por razões diversas, que saibam que suas obras estão presentes para o acesso do mundo. Uma democracia radical e sem sigla.

- Além dos cordéis, onde mais a xilogravura está inserida hoje em dia? Algum projeto misto, com xilo, música ou outra arte para a Paraíba? Quais os seus projetos de xilogravurista para este ano?

Josafá de Orós - Acima de tudo, a xilogravura foi apropriada pelo povo. Os xilogravadores são, em geral, artistas apaixonados por esta arte. A xilogravura é uma forma de expressão presente em tudo e em todos. Em Ariano Suassuna, como sabemos, a xilogravura não se encontra apenas em sua obra e nos seus desdobramentos. A xilogravura, podemos dizer, está, acima de tudo, dentro do gênio desse monstro da beleza. A xilogravura está na feira de Campina Grande, no espírito da feira, no âmago dela. Tudo tem a mesma linguagem. A xilogravura está no cinema, no algodão colorido... na identidade nordestina... no acervo de Poitier na França... Este ano continuarei levando a exposição Paraíba Grandes Nomes para outros recantos do Nordeste e de outros lugares no Brasil. No final. Estou com outra exposição na cidade de Boqueirão-PB, no evento literário que aquela cidade fará brevemente. Serra Branca, Sumé, Cabaceiras e São José dos Cordeiros também serão beneficiárias de oficinas de xilo e de exposições nossas. E ainda estamos abertos para adotar novos compromissos em nossas agendas.

Com redação

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