'Pingo D'água' é, até o momento, o filme mais radical do 47º Festival de Brasília...

O cinema de invenção, conceito privilegiado pela comissão de seleção do 47º Festival de Brasília, chegou ao seu momento mais radical nesta sexta-feira (19), terceira noite da competição da maratona candanga. O ponto alto do programa, marcado por diferentes formas de experimentação de linguagem cinematográfica, foi a exibição do longa-metragem “Pingo d’água”, produção paraibana dirigida por Taciano Valério, rodada em quatro cidades distintas - São Paulo (SP), Tiradentes (MG), Campina Grande e Lagoa Seca, na Paraíba.

Estruturado em blocos aparentemente aleatórios, registrados em preto e branco, o filme mostra um grupo de amigos que planeja se encontrar para fazer um show performático no interior da Paraíba. O crítico e ensaísta belga (radicado no Brasil) Jean-Claude Bernardet e o ator paraibano Everaldo Pontes funcionam como fios condutores da narrativa, ora como si mesmos, ora como personagens que cruzam com os demais. Valério diz que queria “falar de um olhar para dentro, que não acha um eu, mas vários eus”.

O desejo e a falta é o que nos move (como seres humanos) e, no filme, o que nos movia era a incerteza filosofou Valério no encontro com a imprensa, na manhã deste sábado (20), ao comentar sobre a rotina de improvisação da equipe do longa. Não havia um roteiro tradicional, impresso em papel, essas coisas. O que havia eram situações concretas a serem trabalhadas em cada dia de filmagem, que eram repassadas à equipe.

A experimentação também marca os outros dois curtas-metragens da noite, o mineiro “Vento virado”, de Leonardo Cata Preta, e o paulista “Geru”, de Fábio Baldo e Tico Dias. O primeiro é centrado na figura de um homem sem nome (Paulo André, de “O homem das multidões”), que coleciona objetos e transita entre espaços físicos de forma fantástica. O segundo é um registro do cotidiano de um sergipano emudecido por uma traqueostomia, às vésperas de completar cem anos de vida, em sua rotina de refeições, colheita de frutas e passeios pelos campos.

Meu background de curtas-metragens de animação aparece neste filme - confirmou Cata Preta, autor de “O céu no andar de baixo” (2010), que é formado também em Artes Plásticas. - Quando mostrava o roteiro de “Vento virado” para alguém, costuma ouvir das pessoas que parecia uma história de animação. Mas eu não conseguia me ver animando esse roteiro.

Por Carlos Helí de Almeida
Jornal O Globo

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